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CALVINISMO E CAPITALISMO: QUAL É MESMO A SUA RELAÇÃO?



por
Alderi Souza de Matos

A questão de como se relacionam o calvinismo e o capitalismo tem sido objeto de enorme controvérsia, estando longe de produzir um consenso entre os estudiosos. O tema popularizou-se a partir do estudo do sociólogo alemão Max Weber (1864-1920) intitulado A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, publicado em 1904-1905. Numa tese oposta à de Karl Marx, Weber concluiu que a religião exerce uma profunda influência sobre a vida econômica. Mais especificamente, ele afirmou que a teologia e a ética do calvinismo foram fatores essenciais no desenvolvimento do capitalismo do norte da Europa e dos Estados Unidos.

Weber partiu da constatação de que em certos países da Europa um número desproporcional de protestantes estavam envolvidos com ocupações ligadas ao capital, à indústria e ao comércio. Além disso, algumas regiões de fé calvinista ou reformada estavam entre aquelas onde mais floresceu o capitalismo. Na sua pesquisa, ele baseou-se principalmente nos puritanos e em grupos influenciados por eles. Ao analisar os dados, Weber concluiu que entre os puritanos surgiu um "espírito capitalista" que fez do lucro e do ganho um dever. Ele argumenta que esse espírito resultou do sentido cristão de vocação dado pelos protestantes ao trabalho e do conceito de predestinação, tido como central na teologia calvinista. Isso gerou o individualismo e um novo tipo de ascetismo "no mundo" caracterizado por uma vida disciplinada, apego ao trabalho e valorização da poupança. Finalmente, a secularização do espírito protestante gerou a mentalidade burguesa e as realidades cruéis do mundo dos negócios.

Calvino de fato interessou-se vivamente por questões econômicas e existem elementos na sua teologia que certamente contribuíram para uma nova atitude em relação ao trabalho e aos bens materiais. A sua aceitação da posse de riquezas e da propriedade privada, a sua doutrina da vocação e a sua insistência no trabalho e na frugalidade foram alguns dos fatores que colaboraram para o eventual surgimento do capitalismo. Mesmo um crítico contundente da tese de Weber como André Biéler admite: "Calvino e o calvinismo de origem contribuíram, certamente, para tornar muito mais fáceis, no seio das populações reformadas, o desenvolvimento da vida econômica e o surto do capitalismo nascente" (O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 661). 

Todavia, esse e outros autores têm ressaltado como a ética e a teologia do reformador divergem radicalmente dos excessos do capitalismo moderno. Por causa das difíceis realidades econômicas e sociais de Genebra, Calvino escreveu amplamente sobre o assunto. Ele condenou a usura e procurou limitar as taxas de juros, insistindo que os empréstimos aos pobres fossem isentos de qualquer encargo. Ele defendeu a justa remuneração dos trabalhadores e combateu a especulação financeira e a manipulação dos preços, principalmente de alimentos. Embora considerasse a prosperidade um sinal da bondade de Deus, ele valorizou a pessoa do pobre, considerando-o um instrumento de Deus para estimular os mais afortunados à prática da generosidade. A tese de que as riquezas são sinais de eleição e a pobreza é sinal de reprovação é uma caricatura da ética calvinista. Para Calvino, a propriedade, o lucro e o trabalho deviam ser utilizados para o bem comum e para o serviço ao próximo. 

Em conclusão, existe uma relação entre o calvinismo e o capitalismo, mas não necessariamente uma relação de causa e efeito. Provavelmente, mesmo sem o calvinismo teria surgido alguma forma de capitalismo. Se é verdade que a teologia e a ética reformadas se adequavam às novas realidades econômicas e as estimularam, todavia, o tipo de calvinismo que mais contribuiu para fortalecer o capitalismo foi um calvinismo secularizado, que havia perdido de vista os seus princípios básicos. Entre esses princípios está a noção de que Deus é o Senhor de toda a vida, inclusive da atividade econômica, e, portanto, esta atividade deve refletir uma ética baseada na justiça, compaixão e solidariedade social.

A APATIA POLITICA DA IGREJA QUE SE RENDEU AOS PRIVILÉGIOS DO ESTADO



    Em meio a toda esta eferverscência politica que tem agitado o país nesses últimos anos chegamos a mais um pleito eleitoral, disputa esta que tende a ser atípica e decisiva no tocante ao futuro da nação. As alianças e candidaturas estão formadas, o sistema que nos governa está se reinventando com o único e inequívoco proposito de dar manutenção a este projeto corrupto e maligno de poder que foi exposto através da operação lava jato, estimulando uma "revolta popular" e um desejo de "mudança" e "renovação". Porém, na prática nossas atitudes tendem a eleger mais do mesmo e os motivos (desculpas) são os mais diversos para tentar justificar o injustificável, nossas conveniências individualistas em detrimento de qualquer sentimento patriótico. 
   Olhando, em especial, para o eleitorado cristão evangélico me vem a lembrança de um hino antigo que diz o seguinte "Onde está aquele povo barulhento? Onde está que não se vê nenhum irmão? alguém com voz de lamento vai dizer neste momento, aquele povo foi embora pra Sião." Nos últimos anos o eleitorado evangélico tem ganhado uma expressiva importância no tocante ao resultado das urnas. No entanto, a mobilização da maioria das grandes denominação não tem representado seus valores cristãos bíblicos e sim seus "interesses partidários", temos fechado nossos olhos para injustiça, corrupção, cristianizando ideologias e politicas publicas contrárias ao evangelho de Jesus Cristo, apoiando e oramos em favor de criminosos condenados sem temor a Deus nem respeito a sua Palavra, isso quando não resolvemos lançar candidatos fantoches para representar os nossos anseios particulares efêmeros.
  Nossa relação com o estado é de prostituição, pensamos em nos valer do sistema para crescer enquanto " igreja", onde na verdade o sistema e que esta se valento da nossa carnalidade e desvio da verdade para proclamar o reino das trevas, tragando a nossa consciência, nos fazendo apoiar voluntariamente suas bandeiras travestidas de estado democrático de direito. 
    Fomos chamados como igreja do Senhor para sermos a consciência do estado, lhe servindo como referencia fiel de justiça social e padrão moral. Temos uma missão profética de, com a nossa conduta, exercermos uma cidadania que manifeste os valores do reino de Deus. Não podemos apoiar nada e nem ninguém que não comungue de tais princípios, pois o que está em jogo não é apenas o que fazemos, mas principalmente quem somos, e aí é onde encontramos a raiz do problema. Aqueles que não comungam intimamente dos valores e princípios do reino de Deus são indiferentes as consequências de uma cidadania irresponsável. Jesus como homem não fugiu das suas responsabilidades enquanto cidadão quanto esteve entre nós, ele nos deu o exemplo nisto também, ele pagou impostos, ensinou sobre a importância de submissão as autoridades constituídas e como denunciar de forma legitima abusos de autoridade, não acabou com a desigualdade, não criou cotas, nem programas sociais, ele fez melhor, salvou o homem do pecado da justiça e do juízo, transformou sua natureza e o fez satisfeito  nele para a glória do Pai das luzes. Este homem agora não somente tornou-se cidadão dos céus como abraçou uma nova conduta como cidadão desta terra, de inconformismo e denuncia, entendendo que não somente existe um proposito para sua existência como uma missão, lutar contra a tirania nos maldosos os chamando ao arrependimento. 
   Se somos maleáveis em nossa conduta no relacionamento com o poder publico, nos tornamos de igual forma responsáveis pela crise politica que aflige o nosso país e isso nos será cobrado do rigor pelo Senhor, precisamos despertar e tomar uma posição genuinamente cristã bíblica para com o nosso voto contribuirmos com o melhor para o nosso povo. 
    Não seja voto de cabresto, não apoie candidatos por ser fechamento da sua congregação, apoie e ajude a eleger quem tem compromisso com os valores e princípios do Reino de Deus. 


Deus vos Abençoe!

Vicente Leão

O IMBECIL JUVENIL - (Artigo do Professor Olavo de Carvalho)



Jornal da Tarde, 3 de abril de 1998

Já acreditei em muitas mentiras, mas há uma à qual sempre fui imune: aquela que celebra a juventude como uma época de rebeldia, de independência, de amor à liberdade. Não dei crédito a essa patacoada nem mesmo quando, jovem eu próprio, ela me lisonjeava. Bem ao contrário, desde cedo me impressionaram muito fundo, na conduta de meus companheiros de geração, o espírito de rebanho, o temor do isolamento, a subserviência à voz corrente, a ânsia de sentir-se iguais e aceitos pela maioria cínica e autoritária, a disposição de tudo ceder, de tudo prostituir em troca de uma vaguinha de neófito no grupo dos sujeitos bacanas.

O jovem, é verdade, rebela-se muitas vezes contra pais e professores, mas é porque sabe que no fundo estão do seu lado e jamais revidarão suas agressões com força total. A luta contra os pais é um teatrinho, um jogo de cartas marcadas no qual um dos contendores luta para vencer e o outro para ajudá-lo a vencer.

Muito diferente é a situação do jovem ante os da sua geração, que não têm para com ele as complacências do paternalismo. Longe de protegê-lo, essa massa barulhenta e cínica recebe o novato com desprezo e hostilidade que lhe mostram, desde logo, a necessidade de obedecer para não sucumbir. É dos companheiros de geração que ele obtém a primeira experiência de um confronto com o poder , sem a mediação daquela diferença de idade que dá direito a descontos e atenuações. É o reino dos mais fortes, dos mais descarados, que se afirma com toda a sua crueza sobre a fragilidade do recém-chegado, impondo-lhe provações e exigências antes de aceitá-lo como membro da horda. A quantos ritos, a quantos protocolos, a quantas humilhações não se submete o postulante, para escapar à perspectiva aterrorizante da rejeição, do isolamento. Para não ser devolvido, impotente e humilhado, aos braços da mãe, ele tem de ser aprovado num exame que lhe exige menos coragem do que flexibilidade, capacidade de amoldar-se aos caprichos da maioria – a supressão, em suma, da personalidade.

É verdade que ele se submete a isso com prazer, com ânsia de apaixonado que tudo fará em troca de um sorriso condescendente. A massa de companheiros de geração representa, afinal, o mundo, o mundo grande no qual o adolescente, emergindo do pequeno mundo doméstico, pede ingresso. E o ingresso custa caro. O candidato deve, desde logo, aprender todo um vocabulário de palavras, de gestos, de olhares, todo um código de senhas e símbolos: a mínima falha expõe ao ridículo, e a regra do jogo é em geral implícita, devendo ser adivinhada antes de conhecida, macaqueada antes de adivinhada. O modo de aprendizado é sempre a imitação – literal, servil e sem questionamentos. O ingresso no mundo juvenil dispara a toda velocidade o motor de todos os desvarios humanos: o desejo mimético de que fala René Girard, onde o objeto não atrai por suas qualidades intrínsecas, mas por ser simultaneamente desejado por um outro, que Girard denomina o mediador.

Não é de espantar que o rito de ingresso no grupo, custando tão alto investimento psicológico, termine por levar o jovem à completa exasperação impedindo-o, simultaneamente, de despejar seu ressentimento de volta sobre o grupo mesmo, objeto de amor que se sonega e por isto tem o dom de transfigurar cada impulso de rancor em novo investimento amoroso. Para onde, então, se voltará o rancor, senão para a direção menos perigosa? A família surge como o bode expiatório providencial de todos os fracassos do jovem no seu rito de passagem. Se ele não logra ser aceito no grupo, a última coisa que lhe há de ocorrer será atribuir a culpa de sua situação à fatuidade e ao cinismo dos que o rejeitam. Numa cruel inversão, a culpa de suas humilhações não será atribuída àqueles que se recusam a aceitá-lo como homem, mas àqueles que o aceitam como criança. A família, que tudo lhe deu, pagará pelas maldades da horda que tudo lhe exige.
Eis a que se resume a famosa rebeldia do adolescente: amor ao mais forte que o despreza, desprezo pelo mais fraco que o ama.

Todas as mutações se dão na penumbra, na zona indistinta entre o ser e o não-ser: o jovem, em trânsito entre o que já não é e o que não é ainda, é, por fatalidade, inconsciente de si, de sua situação, das autorias e das culpas de quanto se passa dentro e em torno dele. Seus julgamentos são quase sempre a inversão completa da realidade. Eis o motivo pelo qual a juventude, desde que a covardia dos adultos lhe deu autoridade para mandar e desmandar, esteve sempre na vanguarda de todos os erros e perversidade do século: nazismo, fascismo, comunismo, seitas pseudo-religiosas, consumo de drogas. São sempre os jovens que estão um passo à frente na direção do pior.

Um mundo que confia seu futuro ao discernimento dos jovens é um mundo velho e cansado, que já não tem futuro algum.


COMO ALIAR PROFISSÃO E PRINCÍPIOS CRISTÃOS

Pensar no cotejo de vida profissional e vida espiritual deve começar pela recusa a duas posturas possíveis, radicalizadas e opostas, ambas equivocadas. De um lado pode-se imaginar que o interesse de Deus esteja restrito às nossas vidas espirituais, e à comunhão que nesta esfera mantemos com Ele, de forma a concluir-se que o modo que exercemos nossa profissão seja para Ele indiferente.

O extremo oposto é imaginar-se que Deus se interessa pela totalidade de nossa vida, o que abrange por evidente a vida profissional, de modo que assim como quer dirigir nossos passos em geral, deseja fazê-lo também na seara profissional, escolhendo (ou seria melhor dizer, impondo) por nós a profissão que Ele quer que exerçamos (a premissa deste pensamento é correta, Deus de fato se interessa pela totalidade de nosso ser, mas é distorcida a conclusão, porque o interesse de Deus não é sinônimo de imposições insensíveis e desconsideração da individualidade de cada um).

A idéia apresentada no primeiro parágrafo é errônea porque Deus não compactua com um exercício profissional que se desenvolva de modo a comprometer nossos princípios cristãos. Um verdadeiro encontro com Cristo proporcionará ajustes, quando necessários, na vida profissional. E o exemplo mais evidente desta realidade é o efeito da salvação sobre a vida de Zaqueu que imediatamente procurou reparar aos que havia lesado com seu fraudulento meio de exercício profissional mantido até então (Lc 19.8).

Já acerca do ponto mencionado no segundo parágrafo, é bom deixarmos claro que embora seja muito importante buscarmos orientação profissional da parte de Deus, precisamos ter "olhos que vejam" e "ouvidos que escutem" a voz do Senhor, que por vezes se manifesta a nós até mesmo pelas nossas próprias inclinações e preferências pessoais, afinal, foi Ele quem nos entreteceu no ventre de nossas mães (Is 44.2, 24). A vocação que sentimos para determinada profissão, ou apenas para uma área será, em alguns casos, a mais eloqüente manifestação da orientação de Deus. De todo modo, lembre-se de que educação vocacional é um processo que dura a vida toda, de modo que a escolha inicial não tem obrigação de ser definitiva, mas é melhor dar um pequeno passo, do que nenhum (COLLINS, Gary R. Aconselhamento cristão - edição século XXI. São Paulo, Vida Nova, 2011, p. 646-647).

É interessante neste passo pensar que Jesus usou a Pedro, que era pescador por profissão, para pescar, como forma de prover o pagamento do imposto das duas dracmas, conforme referido em Mt 17.24-27. Ou seja, Deus por vezes nos usará através de nossos talentos e inclinações naturais (os quais, a rigor, provém também dEle).

"Cada um de nós deve partir de duas premissas: temos que aceitar o fato de que os desdobramentos do nosso futuro profissional estão nas mãos de Deus e são guiados pelo Espírito Santo; porém, como mordomos, cabe a nós a responsabilidade de desenvolver nossos próprios talentos, aptidões e habilidades" (COLLINS, Gary R. Aconselhamento cristão - edição século XXI. São Paulo, Vida Nova, 2011, p. 639).

Segundo a concepção de Tim Sanders, chefe do núcleo de criação intelectual do Yahoo! (em www.motivaonline.com.br/artigo/48177-conheca-os-tres-pilares-da-realizacao-profissional, acesso em 08/01/2012), a realização profissional se assenta sobre três pilares:
i) Conhecimento: ao invés de valor agregado, pense em conhecimento agregado. Fala-se aqui de toda sorte de conhecimento que se pode acumular, tanto o aprendizado que decorre da própria experiência num trabalho, como aquele que se adquire em livros, manuais, e até leituras aparentemente casuais e de lazer. Mais do que isto, saiba o que está fazendo e porquê, torne-se um especialista na sua área, seja ela qual for. Defina um projeto de vida, que é mais que simplesmente definir metas e objetivos. A relização profissional é baseada tambem no autoconhecimento (conhecer-se o suficiente para saber o que lhe favorece a autoestima, quais são suas virtudes e defeitos, etc. Cf. www.each.usp/prouniversidade/?p=356, acesso em 11/01/2012).

ii) Rede de relacionamentos: cada nome em nossa agenda representa um parceiro em potencial, para nós ou para pessoas que conhecemos. Criamos valor com o nosso conhecimento, mas ele só se realiza quando o compartilhamos com a nossa rede.

iii) Compaixão: fala-se da capacidade de demonstrar afeto, de sentir compaixão ou empatia. A forma como somos percebidos como seres humanos está se tornando um aspecto cada vez mais importante da nova economia. À medida que o mundo se torna mais competitivo nós disputamos também a emoção das pessoas. É importante o que as pessoas pensam de você, mas mais importante o que elas sentem a seu respeito.

Todos estes pilares são biblicamente amparados. Quanto ao primeiro citado, por exemplo, veja-se o que está dito em Provérbios, cap 4.7-9: "A sabedoria é a coisa principal; adquire, pois, a sabedoria; sim, com tudo o que possuis, adquire o conhecimento. Exalta-a, e ela te exaltará; e abraçando-a tu, ela te honrará. Dará à tua cabeça um diadema de graça e uma coroa de glória te entregará". No verso 26 do mesmo capítulo retro citado encontramos o conselho de que todos "os teus caminhos sejam bem ordenados" o que confirma a necessidade de um bom planejamento profissional (um "projeto de vida" conforme afiançamos).

Quando pensamos na importância de valorizar uma rede de relacionamentos, anotamos que Deus usará esta mesma teia de parceiros para cumprir os Seus propósitos em nossas vidas, basta lembrar que foi a amizade feita entre José e o copeiro-chefe de Faraó que Deus usou para levar o jovem hebreu diante da Corte faraônica, e dali ao cargo de Governador (Gn 41.9).

Demonstrar compaixão e empatia foi um dos baluartes do Ministério de Cristo, que sempre enfatizou que deveríamos fazer aos outros aquilo que gostaríamos que fizessem por nós (Mt 7.12), o que, aplicado à vida profissional, denota que devemos ser aos nossos patrões (ou, enfim, aos superiores em geral) o empregado (ou o subordinado) que gostaríamos de ter. Também não nos esqueçamos que seremos medidos com a medida com que medirmos, e que a lei da semeadura não falha, aquilo que o homem plantar, isto também ceifará, de modo que se você é um empregado mesquinho, preguiçoso, indisposto e falador, fatalmente colherá os louros por esta postura.

Lembremos o que está dito em Provérbios 10.4-5: "O que trabalha com mão enganosa empobrece, mas a mão dos diligentes enriquece. O que ajunta no verão é filho sábio, mas o que dorme na sega é filho que envergonha".

Havia uma prática comum aos romanos e a outras nações orientais, nos casos de caravanas oficiais, que era a de obrigar o povo a equipar e preparar cavalgaduras e carruagens, inclusive obrigando-os ao serviço pessoal de indivíduos, por exemplo, carregando cargas. Tendo em mente este quadro, Jesus profere as palavras registradas em Mateus 5.41: "e se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas". A idéia de Cristo é bem aplicável à vida profissional: faça mais do que te pedem, e se possível, antes que te peçam, e sem mesquinharia com o relógio de ponto (p.ex. se for possível terminar uma tarefa mesmo que com um pequeno atraso no horário de saída, faça-o, mesmo sem perspectiva de receber por horas extras).

Diversas outras dicas profissionais poderiam ser ressaltadas. Mas duas mais nos parecem de relevo em especial para o cristão. A primeira se refere à comum orientação de que se "vista a camisa da empresa". A este respeito há enorme plêiade de textos bíblicos, alguns até constrangedores, como é o caso de 1Pe 2.18-19: "Vós, servos, sujeitai-vos com todo o temor ao senhor, não somente ao bom e humano, mas também ao mau; porque é coisa agradável que alguém, por causa da consciência para com Deus, sofra agravos, padecendo injustamente" (destacamos).

Os empregados cristãos devem servir a seus patrões como se servissem ao Senhor, não apenas em aparência ou na presença deles, mas efetivamente de coração, pois a promessa é que do Senhor ele receberá sua recompensa (Cl 3.22-25), de modo que mesmo servindo a um patrão injusto ou abusivo, Deus proverá o justo reconhecimento ao servo. Além disto, o trecho sublinhado estabelece uma correspondência entre vida espiritual e profissional: esta será normalmente o retrato daquela.

Alguns, que têm o privilégio de servir a empregadores cristãos, equivocadamente valem-se desta circunstância para abusarem, sabendo que estes tendem a serem mais compassivos e perdoadores. Ora, a diretiva paulina é exatamente a oposta: justamente por serem irmãos na fé, estes patrões devem ser ainda mais honrados e valorizados (cf. 1 Tm 6.1-2).

A segunda orientação que merece destaque ao fim deste pequeno estudo, diz respeito ao porte no ambiente de trabalho. E não se está a falar de trajes ou outros costumes, mas algo mais delicado: portar-se convenientemente. O fato de crermos que conhecemos a Verdade não nos dá o direito de sermos inoportunos, pernósticos e pedantes com nossos colegas, querendo impor-lhes güela abaixo o Evangelho a qualquer custo e em todo o tempo. Posturas como esta além de não serem produtivas depõem contrariamente ao Reino, além de denunciarem o pouco conhecimento de Cristo, que nunca foi dado a pressões psicológicas desta estirpe, procurando a todo tempo pôr em evidência a liberdade dos destinatários de Sua mensagem, sem explorar sentimentos como a culpa ou a vergonha, e sem exacerbar o legalismo.

Aproveite o ambiente de trabalho para trabalhar. Em Nazaré Jesus, apercebendo-se do ambiente que O cercava, não realizou muitos milagres (Mt 13.58); perante o sumo sacerdote bem como diante de Pilatos, igualmente escolheu o silêncio (Mt 26.62; 27.14). Não se está a reprimir o evangelismo no ambiente de trabalho, mas sim realçando a prudência na vida cristã. Nestes locais a melhor forma de evangelização será, no mais das vezes, o testemunho de vida, um comportamento que reflita luz em meio às trevas. Aliás, normalmente é este o meio mais eficaz de difusão do Evangelho.

Em conclusão, temos que "É provável que um único elemento não consiga determinar o sucesso ou o fracasso na escolha de uma carreira profissional. Fatores como as influências sociais e familiares, traços de personalidade, interesses, aptidões, habilidades, valores, bloqueios, circunstâncias e sensibilidade à voz de Deus se combinam com as ofertas de empregos e as oportunidades de formação, influenciando assim a natureza e a direção da carreira de um indivíduo" (COLLINS, Gary R. Aconselhamento cristão - edição século XXI. São Paulo, Vida Nova, 2011, p. 639).

Obviamente que outras questões relacionadas à intersecção entre as vidas profissional e espiritual poderiam ser apontadas. O presente estudo não tem pretensões ao esgotamento da matéria. São apenas alguns apontamentos que, por agora, parecem pertinentes. Ao fim e ao cabo, o bom é que se saiba que Deus pode ser seu melhor parceiro profissional, Alguém que compartilha seus sonhos e tem todo interesse em que você tenha uma vida profissional tão frutífera e satisfatória quanto a espiritual. Faça Dele seu verdadeiro chefe. Nada como ter o Pai como patrão!

Soli Deo Gloria!

José Wellington Bezerra da Costa Neto


 



10 PRINCÍPIOS CONSERVADORES


por Russel Kirk

Tradução de Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior
Fonte: http://www.kirkcenter.org/kirk/ten-principles.html

Não sendo nem uma religião nem uma ideologia, o conjunto de opiniões designado como conservadorismo não possui nem uma Escritura Sagrada nem um Das Kapital que lhe forneça um dogma. Na medida em que seja possível determinar o que os conservadores crêem, os primeiros princípios do pensamento conservador provêm daquilo que professaram os principais escritores e homens públicos conservadores ao longo dos últimos dois séculos. Sendo assim, depois de algumas observações introdutórias a respeito deste tema geral, eu irei arrolar dez destes princípios conservadores.

Talvez seja mais apropriado, a maior parte das vezes, usar a palavra “conservador” principalmente como adjetivo. Já que não existe um Modelo Conservador, sendo o conservadorismo, na verdade, a negação da ideologia: trata-se de um estado da mente, de um tipo de caráter, de uma maneira de olhar para ordem social civil.

A atitude que nós chamamos de conservadorismo é sustentada por um conjunto de sentimentos, mais do que por um sistema de dogmas ideológicos. É quase verdade que um conservador pode ser definido como sendo a pessoa que se acha conservadora. O movimento ou o conjunto de opiniões conservadoras pode comportar uma diversidade considerável de visões a respeito de um número considerável de temas, não havendo nenhuma Lei do Teste (Test Act)1 ou Trinta e Nove Artigos (Thirty-Nine Articles)2 do credo conservador.

Em suma, uma pessoa conservadora é simplesmente uma pessoa que considera as coisas permanentes mais satisfatórias do que o “caos e a noite primitiva”3. (Mesmo assim, os conservadores sabem, como Burke, que a saudável “mudança é o meio de nossa preservação”). A continuidade da experiência de um povo, diz o conservador, oferece uma direção muito melhor para a política do que os planos abstratos dos filósofos de botequim. Mas é claro que a convicção conservadora é muito mais do que esta simples atitude genérica.

Não é possível redigir um catálogo completo das convicções conservadoras; no entanto, ofereço aqui, de forma sumária, dez princípios gerais; tudo indica que se possa afirmar com segurança que a maioria dos conservadores subscreveria a maior parte destas máximas. Nas várias edições do meu livro The Conservative Mind, fiz uma lista de alguns cânones do pensamento conservador – a lista foi sendo levemente modificada de uma edição para a outra edição; em minha antologia The Portable Conservative Reader, ofereço algumas variações sobre este assunto. Agora, lhes apresento uma resenha dos pontos de vista conservadores que difere um pouco dos cânones que se encontram nestes meus dois livros. Por fim, as diferentes maneiras através das quais as opiniões conservadoras podem se expressar são, em si mesmas, uma prova de que o conservadorismo não é uma ideologia rígida. Os princípios específicos enfatizados pelos conservadores, em um dado período, variam de acordo com as circunstâncias e as necessidades daquela época. Os dez artigos de convicções abaixo refletem as ênfases dos conservadores americanos da atualidade.

·        Primeiro, um conservador crê que existe uma ordem moral duradoura.

Esta ordem é feita para o homem, e o homem é feito para ela: a natureza humana é uma constante e as verdades morais são permanentes.
Esta palavra ordem quer dizer harmonia. Há dois aspectos ou tipos de ordem: a ordem interior da alma e a ordem exterior do estado. Vinte e cinco séculos atrás, Platão ensinou esta doutrina, mas hoje em dia até as pessoas instruídas acham difícil de compreendê-la. O problema da ordem tem sido uma das principais preocupações dos conservadores desde que a palavra conservador se tornou um termo político.
O nosso mundo do século XX experimentou as terríveis conseqüências do colapso na crença em uma ordem moral. Assim como as atrocidades e os desastres da Grécia do V século a.C., a ruína das grandes nações, em nosso século, nos mostra o poço dentro do qual caem as sociedades que fazem confusão entre o interesse pessoal, ou engenhosos controles sociais, e as soluções satisfatórias da ordem moral tradicional.
Foi dito pelos intelectuais progressistas que os conservadores acreditam que todas as questões sociais, no fundo, são uma questão de moral pessoal. Se entendida corretamente esta afirmação é bastante verdadeira. Uma sociedade onde homens e mulheres são governados pela crença em uma ordem moral duradoura, por um forte sentido de certo e errado, por convicções pessoais sobre a justiça e a honra, será uma boa sociedade – não importa que mecanismo político se possa usar; enquanto se uma sociedade for composta de homens e mulheres moralmente à deriva, ignorantes das normas, e voltados primariamente para a gratificação de seus apetites, ela será sempre uma má sociedade – não importa o número de seus eleitores e não importa o quanto seja progressista sua constituição formal.

·        Segundo, o conservador adere ao costume, à convenção e à continuidade.

É o costume tradicional que permite que as pessoas vivam juntas pacificamente; os destruidores dos costumes demolem mais do que o que eles conhecem ou desejam. É através da convenção – uma palavra bastante mal empregada em nossos dias – que nós conseguimos evitar as eternas discussões sobre direitos e deveres: o Direito é fundamentalmente um conjunto de convenções. Continuidade é uma forma de atar uma geração com a outra; isto é tão importante para a sociedade com o é para o indivíduo; sem isto a vida seria sem sentido. Revolucionários bem sucedidos conseguem apagar os antigos costumes, ridicularizar as velhas convenções e quebrar a continuidade das instituições sociais – motivo pelo qual, nos últimos tempos, eles têm descoberto a necessidade de estabelecer novos costumes, convenções e continuidade; mas este processo é lento e doloroso; e a nova ordem social que eventualmente emerge pode ser muito inferior à antiga ordem que os radicais derrubaram um seu zelo pelo Paraíso Terrestre.
Os conservadores são defensores do costume, da convenção e da continuidade porque preferem o diabo conhecido ao diabo que não conhecem. Eles crêem que ordem, justiça e liberdade são produtos artificiais de uma longa experiência social, o resultado de séculos de tentativas, reflexão e sacrifício. Por isto, o organismo social é uma espécie de corporação espiritual, comparável à Igreja; pode até ser chamado de comunidade de almas. A sociedade humana não é uma máquina, para ser tratada mecanicamente. A continuidade, a seiva vital de uma sociedade não pode ser interronpida. A necessidade de uma mudança prudente, recordada por Burke, está na mente de um conservador. Mas a mudança necessária, redargúem os conservadores, deve ser gradual e descriminativa, nunca se desvencilhando de uma só vez dos antigos cuidados.

·        Terceiro, os conservadores acreditam no que se poderia chamar de princípio do preestabelecimento.

Os conservadores percebem que as pessoas atuais são anões nos ombros de gigantes, capazes de ver mais longe do que seus ancestrais apenas por causa da grande estatura dos que
nos precederam no tempo. Por isto os conservadores com freqüência enfatizam a importância do preestabelecimento – ou seja, as coisas estabelecidas por costume imemorial, de cujo contrário não há memória de homem que se recorde. Há direitos cuja principal ratificação é a própria antiguidade – inclusive, com freqüência, direitos de propriedade. Da mesma forma a nossa moral é, em grande parte, preestabelecida. Os conservadores argumentam que seja improvável que nós modernos façamos alguma grande descoberta em termos de moral, de política ou de bom gosto. É perigoso avaliar cada tema eventual tendo como base o julgamento pessoal e a racionalidade pessoal. O indivíduo é tolo, mas a espécie é sábia, declarou Burke. Na política nós agimos bem se observarmos o precedente, o preestabelecido e até o preconceito, porque a grande e misteriosa incorporação da raça humana adquiriu uma sabedoria prescritiva muito maior do que a mesquinha racionalidade privada de uma pessoa.

·         Quarto, os conservadores são guiados pelo princípio da prudência.

Burke concorda com Platão que entre os estadistas a prudência é a primeira das virtudes. Toda medida política deveria ser medida a partir das prováveis conseqüências de longo prazo, não apenas pela vantagem temporária e pela popularidade. Os progressistas e os radicais, dizem os conservadores, são imprudentes: porque eles se lançam aos seus objetivos sem dar muita importância ao risco de novos abusos, piores do que os males que esperam varrer. Com diz John Randolph of Roanoke, a Providência se move devagar, mas o demônio está sempre com pressa. Sendo a sociedade humana complexa, os remédios não podem ser simples, se desejam ser eficazes. O conservador afirma que só agirá depois de uma reflexão adequada, tendo pesado as conseqüências. Reformas repentinas e incisivas são tão perigosas quanto as cirurgias repentinas e incisivas.

·         Quinto, os conservadores prestam atenção no princípio da variedade.

Eles gostam do crescente emaranhado de instituições sociais e dos modos de vida tradicionais, e isto os diferencia da uniformidade estreita e do igualitarismo entorpecente dos sistemas radicais. Em qualquer civilização, para que seja preservada uma diversidade sadia, devem sobreviver ordens e classes, diferenças em condições matérias e várias formas de desigualdade. As únicas formas verdadeiras de igualdade são a igualdade do Juízo Final e a igualdade diante do tribunal de justiça; todas as outras tentativas de nivelamento irão conduzir, na melhor das hipóteses, à estagnação social. Uma sociedade precisa de liderança honesta e capaz; e se as diferenças naturais e institucionais forem abolidas, algum tirano ou algum bando de oligarcas desprezíveis irá rapidamente criar novas formas de desigualdade.

·        Sexto, os conservadores são refreados pelo princípio da imperfectibilidade.

A natureza humana sofre irremediavelmente de certas falhas graves, bem conhecidas pelos conservadores. Sendo o homem imperfeito, nenhuma ordem social perfeita poderá jamais ser criada. Por causa da inquietação humana, a humanidade tornar-se-ia rebelde sob qualquer dominação utópica e se desmantelaria, mais uma vez, em violento desencontro – ou então morreria de tédio. Buscar a utopia é terminar num desastre, dizem os conservadores: nós não somos capazes de coisas perfeitas. Tudo o que podemos esperar razoavelmente é uma sociedade que seja sofrivelmente ordenada, justa e livre, na qual alguns males, desajustes e desprazeres continuarão a se esconder. Dando a devida atenção à prudente reforma, podemos preservar e aperfeiçoar esta ordem sofrível. Mas se os baluartes tradicionais de instituição e moralidade de uma nação forem negligenciados, se dá largas ao impulso anárquico que está no ser humano: “afoga-se o ritual da inocência”4. Os ideólogos que prometem a perfeição do homem e da sociedade transformaram boa parte do século XX em um inferno terrestre.

·         Sétimo, conservadores estão convencidos que liberdade e propriedade estão intimamente ligadas.

Separe a propriedade do domínio privado e Leviatã se tornará o mestre de tudo. Sobre o fundamento da propriedade privada, construíram-se grandes civilizações. Quanto mais se espalhar o domínio da propriedade privada, tanto mais a nação será estável e produtiva. Os conservadores defendem que o nivelamento econômico não é progresso econômico. Aquisição e gasto não são as finalidades principais da existência humana; mas deve-se desejar uma sólida base econômica para a pessoa, a família e o estado. Sir Henry Maine, em sua Village Communities, defende vigorosamente a causa da propriedade privada, como diferente da propriedade pública: “Ninguém pode ao mesmo tempo atacar a propriedade privada e dizer que aprecia a civilização. A história destas duas realidades não pode ser desintrincada”. Pois a instituição da propriedade privada tem sido um instrumento poderoso, ensinando a responsabilidade a homens e mulheres, dando motivos para a integridade, apoiando a cultura geral e elevando a humanidade acima do nível do mero trabalho pesado, proporcionando tempo livre para pensar e liberdade para agir. Ser capaz de guardar o fruto do próprio trabalho; ser capaz de ver o próprio trabalho transformado em algo de duradouro; ser capaz de deixar em herança a sua propriedade para sua posteridade; ser capaz de se erguer da condição natural da oprimente pobreza para a segurança de uma realização estável; ter algo que é realmente propriedade pessoal – estas são vantagens difíceis de refutar. O conservador reconhece que a posse de propriedade estabelece certos deveres do possuidor; ele reconhece com alegria estas obrigações morais e legais.

·    Oitavo, os conservadores promovem comunidades voluntárias, assim como se opõem ao coletivismo involuntário.

Embora os americanos tenham se apegado vigorosamente aos direitos privados e de privacidade, também têm sido um povo conhecido por seu bem sucedido espírito comunitário. Na verdadeira comunidade, as decisões que afetam de forma mais direta as vidas dos cidadãos são tomadas no âmbito local e de forma voluntária. Algumas destas função são desempenhadas por organismos políticos locais, outras por associações privadas: enquanto permanecem no âmbito local e são caracterizadas pelo comum acordo das pessoas envolvidas, elas constituem comunidades saudáveis. Mas quando as funções, quer por deficiência, quer por usurpação, passam para uma autoridade central, a comunidade se encontra em sério perigo. Se existe algo de benéfico ou prudente em uma democracia moderna, isto se dá através da volição cooperativa. Se, então, em nome de uma democracia abstrata, as funções da comunidade são transferidas para uma coordenação política distante, o governo verdadeiro, através do consentimento dos governados, cede lugar para um processo de padronização hostil à liberdade e à dignidade humanas.
Uma nação não é mais forte do que as numerosas pequenas comunidades pelas quais é composta. Uma administração central, ou um grupo seleto de administradores e servidores públicos, por mais bem intencionado e bem treinado que seja, não pode produzir justiça, prosperidade e tranqüilidade para uma massa de homens e mulheres privada de suas responsabilidades de outrora. Esta experiência já foi feita; e foi desastrosa. É a realização de nossos deveres em comunidade que nos ensina a prudência, a eficiência e a caridade.

·   Nono, o conservador percebe a necessidade de uma prudente contenção do poder e das paixões humanas.

Politicamente falando, poder é a capacidade de se fazer aquilo que se queira, a despeito da aspiração dos próprios companheiros. Um estado em que um indivíduo ou um pequeno grupo é capaz de dominar as aspirações de seus companheiros sem controles é um despotismo, quer seja monárquico, aristocrático ou democrático. Quando cada pessoa pretende ser um poder em si mesmo, então a sociedade se transforma numa anarquia. A anarquia nunca dura muito tempo, já que, sendo intolerável para todos e contrária ao fato irrefutável de que algumas pessoas são mais fortes e espertas do que seus próximos. À anarquia sucede a tirania ou a oligarquia, nas quais o poder é monopolizado por pouquíssimos.
O conservado se esforça por limitar e balancear o poder político para que não surjam nem a anarquia, nem a tirania. No entanto, em todas as épocas, homens e mulheres foram tentados a derrubar os limites colocados sobre o poder, a favor de um capricho temporário. É uma característica do radical que ele pense o poder como uma força para o bem – desde que o poder caia em suas mãos. Em nome da liberdade, os revolucionários franceses e russos aboliram os limites tradicionais ao poder; mas o poder não pode ser abolido; e ele sempre acha um jeito de terminar nas mãos de alguém. O poder que os revolucionários pensavam ser opressor nas mãos do antigo regime, tornou-se muitas vezes mais tirânico nas mãos dos novos mestres do estado.
Sabendo que a natureza humana é uma mistura do bem e do mal, o conservador não coloca sua confiança na mera benevolência. Restrições constitucionais, freios e contrapesos políticos (checks and balances), correta coerção das leis, a rede tradicional e intricada de contenções sobre a vontade e o apetite – tudo isto o conservador aprova como instrumento de liberdade e de ordem. Um governo justo mantém uma tensão saudável entre as reivindicações da autoridade e as reivindicações da liberdade.

·        Décimo, o pensador conservador compreende que a estabilidade e a mudança devem ser reconhecidas e reconciliadas em uma sociedade robusta.

O conservado não se opõe ao aprimoramento da sociedade, embora ele tenha suas dúvidas sobre a existência de qualquer força parecida com um místico Progresso, com P maiúsculo, em ação no mundo. Quando uma sociedade progride em alguns aspectos, geralmente ela está decaindo em outros. O conservador sabe que qualquer sociedade sadia é influenciada por duas forças, que Samuel Taylor Coleridge chamou de Conservação e Progressão (Permanence and Progression). A Conservação de uma sociedade é formada pelos interesses e convicções duradouros que nos dão estabilidade e continuidade; sem esta a Conservação as fontes do grande abismo se dissolvem, a sociedade resvala para a anarquia. A Progressão de uma sociedade é aquele espírito e conjunto de talentos que nos instiga a realizar uma prudente reforma e aperfeiçoamento; sem esta Progressão, um povo fica estagnado. Por isto o conservador inteligente se esforça por reconciliar as reivindicações da Conservação e as reivindicações da Progressão. Ele pensa que o progressista e o radical, cegos aos justos reclamos da Conservação, colocariam em perigo a herança que nos foi legada, num esforço de nos apressar na direção de um duvidoso Paraíso Terrestre. O conservador, em suma, é a favor de um razoável e moderado progresso; ele se opõe ao culto do Progresso, cujos devotos crêem que tudo o que é novo é necessariamente superior a tudo o que é velho.
O conservador raciocina que a mudança é essencial para um corpo social da mesma forma que o é para o corpo humano. Um corpo que deixou de se renovar, começou a morrer. Mas se este corpo deve ser vigoroso, a mudança deve acontecer de uma forma harmoniosa, adequando-se à forma e à natureza do corpo; do contrário a mudança produz um crescimento monstruoso, um câncer que devora o seu hospedeiro. O conservado cuida para que numa sociedade nada nunca seja completamente velho e que nada nunca seja completamente novo. Esta é a forma de conservar uma nação, da mesma forma que é o meio de conservar um organismo vivo. Quanta mudança seja necessária em uma sociedade, e que tipo de mudança, depende das circunstâncias de uma época e de uma nação.

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1 Test Act - Lei inglesa de 1673 que exigia dos titulares de cargos civis e militares professarem a fé da Igreja Anglicana através de uma fórmula de juramento (N. do T.).

2 Declaração oficial da doutrina da Igreja Anglicana (N. do T.).

3 A frase "Chaos and old Night" provém do poema épico de John Milton Paradise Lost (Book I; line 544). Milton usa esta frase para se referir à “matéria” a partir da qual Deus ordenou e criou o mundo (N. do T.).  

4 William Buttler Yeats, The Second Coming (N. do T.).

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Assim, este são os dez princípios que tiveram grande destaque durante os dois séculos do pensamento conservador moderno. Outros princípios de igual importância poderiam ter sido discutidos aqui: a compreensão conservadora de justiça, por exemplo, ou a visão conservadora de educação. Mas estes temas, com o tempo que passa, eu deverei deixar para a sua investigação pessoal.

Eric Voegelin costumava dizer que a grande linha de demarcação na política moderna não é a divisão entre progressistas de um lado e totalitários do outro. Não, de um lado da linha estão todos os homens e mulheres que imaginam que a ordem temporal é a única ordem e que as necessidades materiais são as únicas necessidades e que eles podem fazer o que quiserem do patrimônio da humanidade. No outro lado da linha estão todas as pessoas que reconhecem uma ordem moral duradoura no universo, uma natureza humana constante e deveres transcendentes para com a ordem espiritual e a ordem temporal.